Para quem não leu a primeira parte, está no post anterior.
Naquele dia, meu irmão mais novo e eu resolvemos dar uma volta com os amigos vizinhos e a recomendação foi a mesma.
- Não vão à descida do hospital.
Eu devia ter uns 10 anos na época e meu irmão 8 e meio. Era verão, lembro-me muito bem, pois estava com um conjuntinho de shortinho e frente única com riscas, que minha mãe fez.
Fomos direto para lá. Eu com a bicicleta azul maior, e meu irmão com a outra, a vermelha. Minha amiga-vizinha foi com a dela e o irmão mais novo à sua garupa. Cúmplices sempre, nós quatro.
Quando cheguei ao início da rua, já fui ao embalo e pedalando muito, porque no meio dela, soltava os pés e erguia as pernas. Só quase no final era que começava a frear, geralmente dando derrapadas no pedregulho. A descida não era tão íngreme, mas muito longa.
Qual não foi a minha surpresa quando chegou a hora de começar a tentar diminuir a velocidade. Coloquei os pés nos pedais e cadê freio?
A correia havia arrebentado.
Era isso que minha mãe não havia nos explicado. Ela falava do perigo da descida, da possibilidade de levarmos um tombo, mas nunca que a correia, que no meu caso era o freio, poderia arrebentar.
A velocidade da bicicleta foi aumentando e no final havia uma curva que eu sabia que não conseguiria fazer.
Nem mato para eu me jogar tinha. Só casas.
O meu irmão e meus amigos quando me viram gritar que estava sem freio, se puseram a gritar também. Foi então que olhei para trás e me desequilibrei.
Lembro até hoje, se fechar os olhos, do meu corpo arrastando-se no macadame, de bruços. Acho que deslizei uns 5m ou mais. Afundei o pedregulho.
Não conseguia levantar e os três chorando ao meu lado.
Com a ajuda deles, sentei e vi que a frente toda do meu corpo estava coberta de macadame branco. Na hora não senti dor alguma, só uma ardência. Só não esfolei o rosto e as palmas das mãos, e nem sei como.
Logo chegou muita gente, e só me lembro de acordar deitada numa mesa de cimento e várias pessoas de branco ao meu redor.
Muito tempo depois, foi que descobri que era no necrotério do hospital que eu estava. Nosso médico veio conversar comigo e mandou as enfermeiras me limparem. Eu chorei. Já havia muito sangue misturado.
Vocês acreditam que eles me lavaram de mangueira? E ainda assim fiquei soltando pedrinhas das feridas por vários dias.
Quando minha mãe chegou ao hospital, eu estava deitada numa cama com soro, toda cheia de mercúrio cromo e nem lençol podiam colocar em mim.
Ela me olhou e disse:
- Quando você sarar, já sabe muito bem o que te espera.
Se vocês pensam que eu parei de ir lá, estão muito enganados. Foi só melhorar um pouco, principalmente a parte dos quadris, joelhos e braços, onde os ferimentos foram mais profundos, que já estava lá de novo.
Livre, com os longos cabelos ao vento.
Feliz da vida!!!
Bjs no coração!





